Publicado em 07 de fev de 2020

Os desafios de ser família

Minha mãe era bailarina. Não só dançava como ensinava. Na mesma trilha eu segui. Aos sete anos, mais ou menos, comecei minhas primeiras aulas de ballet depois de tentar convencer meu pai que esse era sim um esporte. Mesmo ele continuando com sua opinião de que eu deveria partir para modalidades que me ensinassem realmente a me defender, consegui ingressar na dança.

Após seis anos, o ensinamento “mais qualificado” iria de novo me botar contra a parede e, dessa vez, me distanciar do que um dia já ansiei em representar: a Escola de Dança do Theatro Municipal de São Paulo. Pois bem, foco nos estudos!

Assim como minha mãe, fui separada da dança. Eu, por pressão da academia. Ela, para se tornar mãe. Hoje vejo como quero algo diferente, quero poder ser bailarina, mãe, jornalista e o que mais eu quiser. Sei que não consegui ir pro Municipal, me formei jornalista, mas nem é isso que eu faço. Eita vai começar outro nó…

Mãe aos 15 anos, durante apresentação de ballet no Teatro Cultura Artística com jibóia

Afinal, será que eu não cheguei em nenhum lugar? Calma, ainda tenho tempo, mas não gosto de perder meu tempo. Por isso estou aqui, tentando descobrir o que faço ou não de certo para atingir aquilo que eu acredito ser o meu alvo no momento.

MOMENTO! Já que somos inconstantes, em tempos decidimos que a razão do nosso viver é morar fora, após três anos, a nova meta que te faz se sentir renovado é aprender idiomas. Percebe? Nunca estamos satisfeitos, porque vivemos em constante abastecimento de mente e corpo. Mudamos sempre, mesmo se não quisermos. 

Falei tudo isso para chegar aqui: uma vez sonhei em ser bailarina, uma vez sonhei em ser repórter, uma vez sonhei em apresentar um programa sobre moda, uma vez sonhei em ser documentarista…volta a fita, porque ainda sonho com os dois anteriores. 

A questão é, nossos sonhos não podem ser deixados de lado – mesmo que eles mudem conforme o tempo – só porque queremos um dia nos tornar família. E família de todo jeito, estilo, gênero, lado, frente, você me entendeu!

Por exemplo, desde pequena -sem exageros- digo “quando eu tiver minha filha”. Eu sempre fui mãe, porque sempre quis ser mãe. Não preciso ter um bebê para ter o zelo que a maternidade dá.

Há gente que escolhe não ter criança por motivos bem sábios. Se você é um deles, eu te entendo! O que isso também não quer dizer que você não tem amor com os pequenos, sei que tem.

Como sempre soube que para trazer alguém no mundo precisaria estar bem comigo, estável no trabalho e ter passado por muitas aventuras, antes da maior finalmente chegar. Para isso, o pontapé teoricamente é estudar. Só que pera lá, dava para conciliar dança e estudos…eu era apenas uma garota.

Ser família não é abrir mão de quem somos. É ser o que somos. Então precisamos estar inteiros para abraçar mais um pedaço. Não gosto da ideia de quebra-cabeça, “você é a parte que me falta”. Seja a parte além. Família é isso. É o riso no jantar durante o lanche de domingo. É o choro doloroso quando alguém vai. É o sono não dormido por saber que a pessoa não chegou. É o cuspe no bolo de aniversário. É o abraço de pai e mãe.  

Se você está deixando de lado você para ser família, então “você” nunca foi os dois.

Até breve, Ju.

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Juliana Garcia

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Juliana Garcia

Quando paro para escrever sobre mim é sempre um desafio, porque estamos em constante mudança e nos últimos anos tenho passado por muitas. Mas certas coisas permanecem iguais, não é mesmo? Então, eis algumas verdades sobre a Juliana Garcia. Sabe aquelas crianças "sonhadoras"? Sou uma delas, tenho até uma tatuagem escrito "rêveuse" – tradução da palavra francesa -, amo pensar que o mundo um dia será bom por completo, que poderei trabalhar como apresentadora de TV, viajar ao redor do mundo sem preocupações e manter um projeto bacana com amigos ao meu lado. E não é que o Rua 6 já consegue fazer isso por mim. É uma aventura e tanto.